sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Heróico Uruguai merece o Nobel da Paz por legalizar a maconha

por Simon Jenkins no The Guardian

A guerra às drogas é a única guerra que importa. A posição do Uruguai humilha tirana ONU e os EUA. 

'Uruguai legalizará não só o consumo da canabis mas, crucialmente, sua produção e venda.' Ilustração por Satoshi Kambayashi

Eu costumava pensar que as Nações Unidas eram uma inofensiva organização para debates, com empregos livres de impostos para burocratas de outra maneira desempregados. Eu agora percebo que é uma força para o mal. Sua resposta para uma tentativa verdadeiramente significante de combater uma ameaça global - a nova política de drogas Uruguaia - foi declarar que ela "viola a lei internacional".

Ver a maré mudar quanto as drogas é como tentar detectar o movimento de uma geleira. Mas se movendo ela está. O estatudo de quarta-feira foi introduzido pelo presidente uruguaio José Mujica, "para livrar as gerações futuras desta praga". A praga não são as drogas em si mas a "guerra" contra elas, que deixa a juventude do mundo à merce dos traficantes criminosos e de prisões aleatórias. Mujica se declara um legalizador relutante, mas um determinado a "tirar os usuários de perto do negócio clandestino. Nós não defendemos maconha ou nenhum outro vício, mas pior do que qualquer droga é o tráfico."

Uruguai não só legalizará o consumo da maconha mas, crucialmente, sua produção e venda. Usuários devem ser maiores de 18 anos e uruguaios registrados. Enquanto pequenas quantidades podem ser cultivadas privadamente, firmas irão produzir canabis com licença estatal e preços serão fixados para minar o negócio dos traficantes. O país não tem um problema na escala da Colõmbia ou México - somente 10% ods adultos admitem terem usado maconha - e deixa claro que a medida é um experimento.

Essa abordagem mensurada está mais avançada até do que estados dos EUA como Colorado e Washington, que legalizaram consumo recreacional assim como médico da canabis, mas não a produção. Enquanto a lei uruguaia não cobre outras drogas, ao privar os traficantes de estimados 90% do mercado, a esperança é tanto prejudicar o grosso do mercado criminal e diminuir o efeito porta-de-entrada dos traficantes empurrando drogas mais pesadas aos usuários.

A coragem de Mujica não deve ser subestimada. Seu país é pequeno e tradicionalista, e dois terços da população questionada se opõe à medida, apesar desse total ter subido de 3% uma década atrás. Em adição alguns lobbies pró-legalização objecionam sua nacionalização de facto. Uma questão em aberto é se um cartel estatal será tão eficiente quanto um livre-mercado regulado. Mas o chefe do controle das drogas, Julio Calzada, é curto: "Por 50 anos, nós tentamos abordar o problema das drogas somente com uma ferramente - penalização - e isso fracassou. Como resultado, hoje temos mais consumidores, maiores organizações criminais, mais lavagem de dinheiro, tráfico de armas e danos colaterais."

A resposta do Comitê Internacional de Controle de Narcóticos da ONU foi entoar fúteis clichês. A mudança, segundo seu chefe Raymond Yans, iria "ameaçar pessoas jovens e contribuir para um início ainda mais precoce da adicção". Seria também a violação de um "tratado universalmente aceito e internacionalmente endossado". Ainda sim a ONU admite que meio século de tentativas de supressão levou a 162 milhões de usuários de canabis mundialmente, ou um total de 4% da população adulta.

Com 78 anos, Mujica percebe a ironia que muitos dos seus contemporâneos Sul-Americanos condordam com ele, mas somente após deixarem seus gabinetes. Eles incluem os ex-presidentes do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, do México, Ernesto Zedillo e da Colômbia, César Gaviria, todos agora pedindo pela descriminalização do mercado das drogas para que eles possam regular um negócio cujos operadores conflitantes estão matando milhares de pessoas todo ano. O valor do mercado das drogas só é eclipsado pelo mercado das armas. Mesmo assim os EUA resiste a descriminalização para que continue a lutar contra a produção de cocaína e ópio na América Latina e no Afeganistão, para evitar confrontar o verdadeiro inimigo: um consumo doméstico que está fora de controle.

Por tudo isso, a futilidade da repressão está levando à leis sendo derrubadas por todo Ocidente. 20 estados dos EUA legalizaram a maconha medicinal. A Califórnia neste ano rejeitou por poucos votos a taxação do consumo (rejeitando uma receita estimada em 1,3 bilhões de dólares anuais) mas pode ainda voltar atrás. O uso das drogas é aceito por grande parte da América Latina (tirando o Brasil infelizmente), e de facto, na Europa. Até na Grã-Bretanha, onde a possessão pode ser punida com 5 anos na prisão, somente 0,2% dos casos processados resultaram em uma sentença. Segundo boatos, os usuários de drogas mais intensivos estão nas cadeias do próprio Estado. A lei efetivamente colapsou em si mesma.

A dificuldade agora é resolver a inconsistência de agentes da lei "fazendo vista grossa" para o consumo enquanto deixam o fornecimento (e logo publicidade) não taxados e sem regulações, nas mãos dos traficantes de drogas. Isso é quase um subsídio estatal para o crime organizado. Esse descaso pode salvar a polícia e os tribunais dos custos da repressão, mas deixa cada grande mercado das drogas aberto para todos tipos de risco massivo, da canabis até drogas mais pesadas.

Acabar com essa inconsistência requer ação dos legisladores. Ainda sim eles continuam presos por uma mistura letal de tabu, tribalismo e medo da mídia. A política de drogas britânica relacionada a todos intoxicantes (do álcool a benzodiazepínicos) é caótica e perigosa. O governo na quinta-feira admitiu sua inabilidade para controlar "drogas designer legais", há novas sendo inventadas toda semana. Correndo atrás de laboratórios de fundo-de-quintal acenando com banições e mandatos de prisão como policiais de Keystone (policiais satíricos de filmes antigos).

A catástrofe de morte e anarquia que a fracassada repressão às drogas trouxe ao México e outros narco-estados faz a obsessiva guerra ao terror do Ociente parecer um pequeno espetáculo secundário. E a estrada para fora dessa escuridão está agora sendo traçada não pelo mundo antigo, e sim pelo novo, cujos heróicos legisladores merecem ser premiados com o Nobel da Paz. São eles quem aceitaram o desafio de combater a única guerra mundial que realmente importa - a guerra contra a guerra às drogas. E é significante que os mais corajosos países são também os menores. Obrigado aos céus pelos pequenos Estados.


Texto indicado por Henrique Carneiro
Traduzido pela FOAP

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

"Weed" Documentário sobre a maconha medicinal / Dr. Sanjay Gupta CNN





Download: https://mega.co.nz/#!uZYBWI6Y!BhdPIUP6VufAxZBnDcK3iXikoFIw8wqT6vAZCU_kHEs

Documentário sobre o poder medicinal da cannabis/maconha no tratamento de diversas doenças e males, legendado para português pela comunidade do Growroom e pela FOAP! 


Ajude a divulgar este vídeo, seja por email, twitter, facebook ou outras redes sociais.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

34 Estudos Médicos Confirmando que Maconha Cura o Câncer







Por Bedrocan, Ativista e Auto-Cultivador Cannábico do Coletivo Growroom.net

As reivindicações - às vezes selvagens – diante de estudos que comprovam que a cannabis (ou maconha) cura o câncer são frequentemente descartadas como falácias ou charlatanismo. Afinal, se a cannabis cura o câncer realmente, ela não poderia ser usada na medicina moderna? Não poderiam os médicos prescrever isso aos seus pacientes? Não poderia a cannabis pelo menos ser classificada como um medicamento por parte do governo?

O fato é que há um grande grupo de empresas que fazem uma quantidade ainda maior de dinheiro com a venda e perpetuação de produtos químicos fabricados e indicados para o tratamento do câncer. A vida de vários profissionais bem sucedidos depende dessas empresas e seus medicamentos. Assim a maconha, uma planta que pode ser cultivada em seu quintal, representa uma grande ameaça para a fábrica de "dinheiro químico" que essas pessoas têm em sua posse.


Afora “o mercado” dos internamentos e tratamentos para viciados, fruto da política proibicionista de Guerra as Drogas: começa com extorsões e prisões, e termina com a produção social do vício.

Assim como a exclusão social dos direitos de qualquer minoria (como os homossexuais), a partir de preconceitos, os usuários de maconha são culpabilizados e julgados criminosos por suas preferências pessoais. São obrigados a aguentarem calados e sem representação legal em sua defesa. Ou são tratados como doentes: num artigo futuro falaremos sobre a hipótese da automedicação no uso de drogas e substâncias psicoativas, como forma de contrapor essas visões estigmatizantes, pejorativas e preconceituosas daqueles que usam substâncias.




Atualmente 59.300 prisioneiros acusados ​​ou condenados por violar as leis de maconha estão atrás das grades nos EUA. Destes, 17.000 estão atrás das grades unicamente por posse, não tráfico. Fazer cumprir as leis de maconha lá custa cerca de US$ 10 a 15 bilhões somente em custos diretos, sem mencionar os custos sustentados de encarceramento do indivíduo que não fez nada para prejudicar ninguém. Estima-se que o dinheiro gasto na aplicação de leis inúteis da maconha é o dobro do que se gasta com educação nos EUA.




Há uma campanha ostensiva realizada de forma embusteira, sendo travada pelo complexo industrial médico-químico-farmacêutico para reprimir o uso e cultivo desta planta altamente benéfica. As vítimas: nossos entes queridos, ou talvez nós mesmos.Tudo por conta da ganância e procura por lucros desenfreados.



Com uma pesquisa rápida no youtube você encontrará dezenas de depoimentos e vídeos de pessoas que afirmam ter alcançado a cura do câncer com cannabis, como o documentário Run From the Cure (traduzindo, Correndo da Cura, de Rick Simpson), aonde um homem relata de forma comovente como quase morreu, e seu amor pela cannabis.




Quão válidas são essas afirmações? É a ciência real que dá apoio a essas estórias de cura de câncer? A resposta é sim, elas são, de fato, apoiadas por estudos científicos. Tal como qualquer tratamento com uma taxa de sucesso de 100% é altamente improvável. Esta planta incrível permanece ilegal, fica incapaz de ser estudada em um fórum mais amplo e torna-se uma "farsa" ou um “perigo”.




Abaixo está uma lista de 34 estudos para os céticos por aí. Eles são classificados por tipo de câncer e tratamento (os estudos e pesquisas estão em ingês).

Maconha Cura Câncer no Cérebro

Maconha Cura Câncer de Boca e Garganta

Maconha Cura Câncer de Mama

Maconha Cura Câncer de Pulmão

Maconha Cura Câncer Uterino, Testicular e Pancreático

Maconha Cura Câncer de Próstata

Maconha Cura Câncer Colorretal

Maconha Cura Câncer de Ovário

Maconha Cura Câncer de Sangue

Maconha Cura Câncer de Pele
  
Maconha Cura Câncer de Fígado
Maconha Cura Câncer do Trato Biliar

Maconha Cura Câncer de Bexiga
  
Maconha Cura Câncer em Geral




 Fonte: http://www.realfarmacy.com/34-medical-studies-for-the-skeptic/

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Relato sobre a maconha por Carl Sagan

Este relato foi escrito em 1969 pelo cientista e divulgador científico Carl Sagan para publicação no livro "Marijuana Reconsidered" (1971) do Dr. Lester Grinspoon (Harvard Medical School), sob o pseudômino Mr. X.



Tudo começou há cerca de dez anos atrás. Eu tinha chegado a um período consideravelmente mais relaxado na minha vida - um momento no qual eu passei a sentir que havia mais na vida do que a ciência, um momento de despertar da minha consciência social e amabilidade, um tempo no qual que eu estive aberto a novas experiências. Eu tinha amizade com um grupo de pessoas que ocasionalmente fumavam maconha, de forma irregular, mas com evidente prazer. Inicialmente eu não estava disposto a participar, mas a euforia aparente que a cannabis produzia e o fato de que a planta não criava vício fisiológico, eventualmente me persuadiram a tentar. Minhas experiências iniciais foram totalmente decepcionantes; não houve efeito algum, e eu comecei a cogitar uma variedade de hipóteses sobre a cannabis ser um placebo, que funciona pela expectativa e hiperventilação ao invés de química. Após cerca de cinco ou seis tentativas sem sucesso, no entanto, aconteceu. Eu estava deitado de costas na sala de estar de um amigo examinando ociosamente o padrão de sombras no teto expressos por um vaso de plantas (não cannabis!). De repente eu percebi que eu estava examinando uma intricada e detalhada miniatura de um Volkswagen, claramente delineada pelas sombras.
Eu era muito cético a esta percepção, e tentei encontrar inconsistências entre Volkswagen e o que eu via no teto. Mas tudo estava lá, até calotas, placa de licença, cromo, e até mesmo a pequena alça utilizada para a abertura do porta-malas. Quando eu fechei os olhos, fiquei chocado ao descobrir que havia um filme passando no interior das minhas pálpebras. Flash... uma simples cena de um campo com uma casa de fazenda vermelha, um céu azul, nuvens brancas, caminho amarelo sinuoso entre colinas verdes ao horizonte... Flash... a mesma cena, casa laranja, céu marrom, nuvens vermelhas, caminho amarelo, campos violetas . . . Flash . . . Flash . . . Flash. Os flashes vieram a cerca de uma vez por cada batimento cardíaco. Cada flash trouxe a mesma cena simples em vista, mas cada vez com um conjunto diferente de cores...matizes extraordinariamente profundas, e surpreendentemente harmoniosas em sua justaposição. Desde então, tenho fumado ocasionalmente e desfrutado completamente. Ela amplifica sensibilidades tórpidas e produz o que para mim são efeitos ainda mais interessantes, como vou explicar brevemente.

Eu posso lembrar-me de outra breve experiência visual com cannabis, na qual eu vi uma chama de vela e descobri no coração da chama, em pé com indiferença magnífica, o cavalheiro espanhol de chapéu preto e capa que aparece no rótulo da garrafa de vinho Sandeman. Olhar para chamas sob o efeito, a propósito, especialmente através de um daqueles caleidoscópios de prisma que modificam a imagem de todo seu entorno é uma experiência extraordinariamente tocante e bonita.



Eu quero explicar que em nenhum momento eu pensei que estas coisas estavam "realmente" ali. Eu sabia que não havia Volkswagen no teto e não havia homem salamandra Sandeman na chama. Eu não sinto qualquer contradição nestas experiências. Há uma parte de mim fazendo, criando a percepção que na vida cotidiana seria bizarra; e há uma outra parte de mim que é uma espécie de observador. Cerca de metade do prazer vem da parte-observador apreciando a obra da parte-criadora. Eu sorrio, ou às vezes até rio em voz alta das imagens no interior de minhas pálpebras. Neste sentido, suponho que a cannabis seja psicotomimética, mas não sinto nem o pânico ou terror que acompanham algumas psicoses. Possivelmente isso é porque eu sei que é minha própria viagem, e que eu posso "descer" rapidamente em qualquer momento que, se eu quiser.

Enquanto minhas percepções iniciais foram todas visuais, e carentes de imagens de seres humanos, esses dois itens mudaram nos anos seguintes. Hoje um único 'baseado' é o suficiente para me deixar sob o efeito. Eu testo se estou sob o efeito fechando os olhos e esperando pelos flashes. Eles vêm muito antes de outras alterações em minha visão ou outras percepções. Eu penso que este é um problema de ruído de sinal, o nível de ruído visual é muito baixo com os olhos fechados. Um outro interessante aspecto de informação teórica é a prevalência - pelo menos nas minhas imagens em flash - de desenhos animados: apenas os contornos das figuras, caricaturas, e não fotografias. Eu acho que isso é simplesmente uma questão de compressão de informação, seria impossível compreender o conteúdo total de uma imagem a partir do conteúdo de informação de uma fotografia comum, digamos, 108 bits, na fração de segundo que ocupa um flash. E a experiência do flash é projetada, se é que posso usar essa palavra, para apreciação imediata. O artista e o espectador são um. Isso não quer dizer que as imagens não são maravilhosamente detalhadas e complexas. Eu tive recentemente uma imagem em que duas pessoas estavam conversando, e as palavras que eles estavam dizendo formavam e desapareciam em amarelo acima de suas cabeças, em cerca de uma sentença por batimento cardíaco. Desta forma foi possível acompanhar a conversa. Ao mesmo tempo, uma palavra ocasionalmente aparecia em letras vermelhas, entre os amarelos acima de suas cabeças, perfeitamente no contexto da conversa, mas se um lembrava-se destas palavras vermelhas, eles enunciavam um conjunto completamente diferente de declarações penetrantemente críticas para a conversa. O conjunto inteiro da imagem que eu esbocei aqui, eu diria que pelo menos 100 palavras amarelas e algo como 10 palavras vermelhas, ocorreu em algo menos de um minuto.

A experiência com cannabis tem melhorado muito o meu apreço pela arte, um assunto que eu nunca tinha apreciado antes. A compreensão da intenção do artista que eu posso alcançar quando estou sob efeito algumas vezes é mantida quando não estou mais sob o efeito. Esta é uma das muitas fronteiras humanas que a cannabis me ajudou a atravessar. Há também alguns entendimentos profundos relacionadas a arte - não sei se são verdadeiras ou falsas, mas elas foram divertidas de formular. Por exemplo, eu ter passado algum tempo elevado a olhar para o trabalho do surrealista belga Yves Tanguey. Alguns anos mais tarde, eu emergi de um longo mergulho no Caribe e descansei exausto em uma praia formada pela erosão nas proximidades de um recife de coral. Examinando ociosamente os fragmentos arqueados de coral de cor pastel que ia até a praia, vi diante de mim uma grande pintura de Tanguey. Talvez Tanguey tenha visitado aquela praia na sua infância.

Uma melhoria muito semelhante na minha apreciação pela música ocorreu com a cannabis. Pela primeira vez eu fui capaz de ouvir as partes separadas de uma harmonia de três partes e a riqueza do contraponto. Desde então descobri que os músicos profissionais podem facilmente tocar muitas partes separadas simultaneamente em suas cabeças, mas esta foi a primeira vez para mim. Novamente, a experiência de aprendizagem quando sob o efeito teve pelo menos até certo ponto permanecido quando o efeito passa. O prazer da comida é amplificada; sabores e aromas surgem, que por alguma razão nós normalmente parecemos estar muito ocupados para notar. Eu sou capaz de dar a minha atenção para a sensação. Uma batata terá uma textura, um corpo, e sabor como o de outras batatas, mas muito mais. Cannabis também aumenta o prazer do sexo - por um lado dá uma extraordinária sensibilidade, mas também por outro lado adia o orgasmo: em parte por me distrair com a profusão de imagens que passam diante dos meus olhos. A duração do orgasmo parece se alongar muito, porém esta pode ser a experiência comum de expansão do tempo que ocorre ao se fumar cannabis.



Eu não me considero uma pessoa religiosa, no sentido usual, mas há um aspecto religioso em algumas experiências. A sensibilidade em todas as áreas me dão um sentimento de comunhão com o meu entorno, tantos animados quanto inanimados. Às vezes, um tipo de percepção existencial do absurdo toma conta de mim e eu vejo com terríveis certezas as hipocrisias e atitudes minhas e dos meus semelhantes. E em outras vezes, há um sentido diferente do absurdo, uma lúdica e fantástica consciência. Ambos os sentidos do absurdo podem ser comunicados, e algumas das 'viagens' mais gratificantes que tive foram ao compartilhar conversas e percepções e humor. A cannabis nos traz a consciência de que nós gastamos uma vida inteira sendo treinados para ignorar, esquecer e colocar para fora de nossas mentes. A noção de como o mundo realmente é pode ser enlouquecedora; a cannabis me trouxe alguns sentimentos de como é ser louco, e como usamos a palavra "louco" para evitar pensar em coisas que são muito dolorosas para nós. Na União Soviética dissidentes políticos são rotineiramente colocados em manicômios. O mesmo tipo de coisa, um pouco mais sutil, talvez, ocorre aqui: "você ouviu o que Lenny Bruce disse ontem? Ele deve estar louco". Quando na experiência sob cannabis descobri que há alguém dentro daquelas pessoas que chamamos de loucos.

Quando estou sob o efeito, posso penetrar no passado, recordar memórias de infância, amigos, parentes, brinquedos, ruas, cheiros, sons e sabores de uma época que já desapareceu. Eu posso reconstruir atuais ocorrências de episódios de infância entendidos apenas pela metade na época. Muitas, mas não todas minhas viagens com cannabis, têm em algum lugar um simbolismo importante para mim que não vou tentar descrever aqui, uma espécie de mandala em alto relevo na 'viagem'. Associar-se livremente a esta mandala, tanto visualmente quanto como em palavras, produz um leque muito rico de entendimentos profundos.

Existe um mito sobre tais entendimentos/insights: o usuário tem uma ilusão de grande entendimento/insight, mas ele não sobrevive ao escrutínio na manhã seguinte. Estou convencido de que isto é um erro, e que os insights devastadores alcançados quando sob o efeito são percepções reais, o problema principal é colocar essas ideias em uma forma aceitável para nós mesmos quando não estivermos mais sob o efeito no dia seguinte. Algum dos mais difíceis trabalhos que já fiz foi gravar tais ideias em fita ou por escrito. O problema é que dez idéias ou imagens ainda mais interessantes se perdem no esforço de gravar uma. É fácil entender porque alguém pode pensar que é um desperdício de esforço ter todo este trabalho para colocar esses pensamentos no papel, após o efeito, uma espécie de intrusão da Ética Protestante. Mas já que eu vivo quase toda a minha vida sem estar sob o efeito, eu tive esse esforço - com sucesso, eu acho. Aliás, acho que ideias e entendimentos razoavelmente bons podem ser lembrados no dia seguinte, mas somente se algum esforço for feito para gravá-los de outra maneira, quando não estivermos mais sob o efeito. Se eu escrever o insight para dizer a alguém, então eu posso lembrar sem assistência na manhã seguinte, mas se eu apenas digo para mim mesmo que eu tenho que fazer um esforço para lembrar, eu nunca faço.

Acho que a maioria dos insights que eu consegui quando estava sob efeito foram sobre questões sociais, uma área de bolsa de estudos muito diferente daquela pela qual eu sou geralmente reconhecido. Lembro-me de uma ocasião, tomando um banho com a minha mulher ao mesmo tempo elevada, em que eu tive uma ideia sobre a origem e invalidez do racismo em termos de curvas de distribuição gaussiana. Foi um ponto óbvio de uma forma, mas raramente falado. Eu desenhei as curvas em sabão na parede do chuveiro, e fui escrever a ideia. Uma ideia levou a outra, e no final de cerca de uma hora de muito trabalho duro, eu descobri que tinha escrito onze ensaios curtos sobre uma ampla gama de tópicos sociais, políticos, filosóficos e biológico-humanos. Devido a problemas de espaço, não posso entrar em detalhes sobre estes ensaios, mas de todos os sinais externos, tais como reações públicas e comentários de especialistas, eles parecem conter insights válidos. Eu os usei em tratados acadêmicos, palestras públicas e em meus livros.

Mas deixe-me tentar pelo menos dar o sabor de tais insights/entendimentos e os seus acompanhamentos. Uma noite, sob efeito da cannabis, eu estava investigando a minha infância, um pouco de autoanálise, e fazendo o que me pareceu ser um progresso muito bom. Eu, então, parei e pensei o quão extraordinário foi Sigmund Freud, que sem ajuda de drogas, tinha sido capaz de alcançar a sua própria notável autoanálise. Mas então me bateu como um trovão que eu estava errado, que Freud tinha passado a década anterior de sua autoanálise como um experimentador e com um proselitizador para o uso da cocaína, e pareceu-me muito evidente que os genuínos insights psicológicos que Freud trouxe para o mundo foram pelo menos em parte derivados de sua experiência com drogas. Eu não tenho ideia se isso é de fato verdade, ou se os historiadores de Freud concordariam com esta interpretação, ou mesmo se tal ideia foi publicada no passado, mas é uma hipótese interessante e um que passa em primeiro lugar no escrutínio no mundo dos "caretas" ou "quadrados".



Eu posso lembrar-me da noite na qual de repente eu percebi como era ser louco, ou noites nas quais meus sentimentos e percepções foram de natureza religiosa. Eu tinha uma sensação muito precisa de que estes sentimentos e percepções, escritos casualmente, não resistiriam ao escrutínio crítico habitual que é o meu ganha-pão como cientista. Se eu encontro na parte da manhã uma mensagem de mim mesmo da noite anterior, informando-me que há um mundo que nos rodeia que mal percebemos, ou que podemos nos tornar um com o universo, ou mesmo que alguns políticos são homens desesperadamente assustados, eu posso tender para a descrença; mas quando estou sob o efeito, eu sei sobre essa descrença. E então eu tenho uma fita na qual eu argumento para mim mesmo para levar a sério tais comentários. Eu digo "Ouça com atenção, seu filho da puta da manhã! Esta coisa é real!" Tento mostrar que a minha mente está trabalhando com clareza; lembro-me o nome de um conhecido do colégio que eu não havia pensado em trinta anos, eu descrevo a cor, tipografia e formato de um livro em outra sala e estas memórias passam pela crítica do escrutínio da manhã. Estou convencido de que há níveis genuínos e válidos de percepção disponíveis com cannabis (e provavelmente com outras drogas), que são, através dos defeitos da nossa sociedade e do nosso sistema educacional, indisponíveis para nós sem essas drogas. Tal observação se aplica não apenas à autoconsciência e de atividades intelectuais, mas também para as percepções de pessoas reais, uma sensibilidade muito maior para a expressão facial, entonação, e escolha de palavras que às vezes produzem um relacionamento tão próximo, que é como se duas pessoas estivessem lendo cada uma a mente da outra.

A maconha possibilita não músicos saberem um pouco de como é ser um músico, a não-artistas a entender as alegrias da arte. Porém eu não sou nem um artista, nem um músico. E meu próprio trabalho científico? Enquanto eu encontro uma inclinação curiosa de não pensar em minhas preocupações profissionais enquanto sob o efeito - a atração em aventuras intelectuais sempre parecem estar em outra área - eu fiz um esforço curioso para pensar em alguns problemas particularmente difíceis da minha área sob o efeito da maconha. E funciona, até certo ponto. Eu posso atestar, por exemplo, alguns fatos experimentais relevantes que parecem serem mutuamente inconsistentes. Até agora tudo bem. Pelo menos nos trabalhos de memorização. Então ao tentar conceber um meio de reconciliar os fatos discrepantes, eu fui capaz de pensar numa possibilidade muito bizarra, uma que eu tenho certeza, nunca conseguiria ter pensado sem estar sob o efeito. Eu escrevi um artigo que menciona esta ideia em passagem. Eu penso ser algo pouco provável de ser verdade, mas que tem consequências que são testáveis experimentalmente, o que significa que é uma teoria aceitável.

Eu mencionei que na experiência da maconha há uma parte da sua mente que se mantém um observador impassível, que é capaz de diminuir o efeito da planta rapidamente se necessário. Eu fui, em algumas ocasiões, forçado a dirigir em trânsito pesado quando estava sob o efeito. Eu consegui fazê-lo sem dificuldade alguma, apesar de ter tido alguns pensamentos sobre as maravilhosas cores vermelhas-cereja das luzes de trânsito. Eu descobri que após dirigir eu não estava mais sob o efeito de forma alguma. Não haviam flashes dentro de minhas pálpebras. Se você está sob o efeito e seu filho está chamando, você pode responder de forma tão capaz como poderia normalmente. Eu não advogo dirigir quando sob o efeito da maconha, mas eu posso dizer baseado em experiência pessoal que pode certamente ser feito. Minhas "viagens" são sempre refletivas, meditativas, pacíficas, excitantes intelectualmente e sociávels, diferentes da maioria dos efeitos do álcool, e nunca há ressaca com a maconha. Através dos anos eu descobri que quantidades um pouco menores do que utilizava antes podiam produzir o mesmo grau de efeitos, e num cinema eu recentemente descobri que eu podia ficar sob o efeito somente ao inalar a fumaça de cannabis que permeava o cinema.



Há um aspecto auto-regulatório muito bom em relação à cannabis. Cada tragada é uma dose muito pequena, o intervalo de tempo entre a inalação de uma tragada e a sensação do seu efeito é pequeno; e não há desejo por mais após o efeito chegar. Eu acho que a relação R, do tempo de sentir a dose tomada ao tempo necessário para tomar uma dose excessiva é uma quantidade importante. R é muito grande para o LSD (que eu nunca tomei) e razoavelmente curto para cannabis. Pequenos valores de R deveriam ser uma medida da segurança de drogas psicodélicas. Quando a cannabis for legalizada, espero ver esta relação como um dos parâmetros impressos na embalagem. Espero que o tempo não seja muito distante, a ilegalidade da cannabis é ultrajante, um impedimento à plena utilização de uma droga que ajuda a produzir a serenidade e discernimento, sensibilidade e companheirismo tão desesperadamente necessários neste mundo cada vez mais louco e perigoso.

Tradução: F.O.A.P.
Texto original em inglês no site do Dr. Lester Grinspoon: http://marijuana-uses.com/mr-x/

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Pode a maconha tratar o câncer sem os efeitos devastadores da quimioterapia?


Pesquisa mostra que o THC e outros compostos encontrados apenas na maconha não apenas aliviam os sintomas,  como podem encolher tumores e diminuir a propagação do câncer.



    Créditos da foto: http://pantanova.nl

Nota do Editor: O que segue é um trecho  do autor de "Acid Dreams" Martin A. Lee em seu novo livro "Smoke Signals: A Social History of Marijuana" -- Medical, Recreational, and Scientific (Simon and Schuster, 2012):

Estudos científicos revisados por pares em diversos países mostram que o THC e outros compostos encontrados apenas na maconha são eficazes não só para administrar os sintomas do câncer (dor, náuseas, perda de apetite, fadiga, e assim por diante), como conferem um efeito antitumoral.

Experimentos com animais realizados por Manuel Guzmán na Universidade Complutense de Madrid, no final de 1990 revelou que um canabinóide sintético injetado diretamente em um tumor maligno no cérebro poderia erradicá-lo. Relatado na revista "Nature Medicine", esta descoberta notável solicitou estudos adicionais na Espanha e outros países que confirmaram as propriedades anticancerígenas de compostos derivados da maconha. A equipe de Guzmán administrou THC puro através de um cateter para os tumores de nove pacientes hospitalizados com glioblastoma (uma forma agressiva de câncer no cérebro) que não responderam aos tratamentos tradicionais. Este foi o primeiro ensaio clínico avaliando a ação antitumoral de canabinóides sobre os seres humanos, e os resultados, publicados no British Journal of Cancer, foram muito promissores. Tratamento com THC foi associado a proliferação de células de tumor significativamente reduzido em todos pacientes sujeitos ao teste.

Guzmán e seus colegas descobriram que o THC e seus emuladores sintéticos mataram seletivamente as células tumorais, deixando as células saudáveis ​​ilesas. Nenhuma droga da "Big Pharma" (ou grandes empresas da indústria farmacêutica), usadas na quimioterapia pode induzir apoptose (morte celular) em células cancerígenas, sem prejudicar o organismo inteiro. Até 90 por cento dos pacientes com câncer avançado sofrem de disfunção cognitiva devido ao que chamam de "cérebro de quimio", um efeito colateral comum de remédios corporativos que destroem indiscriminadamente tecido cerebral, enquanto que os canabinóides destroem radicais livre, protegem o tecido cerebral e estimulam o crescimento de células cerebrais.

Há crescentes evidências de que os canabinóides podem "representar uma nova classe de drogas anticâncer que retardam o crescimento do câncer, inibem a angiogênese [a formação de novos vasos sanguíneos] e disseminação metastática de células cancerígenas", de acordo com a revista científica "Mini-Reviews in Medicinal Chemistry" (Mini-Revisões em Química Medicinal) . Estudos de cientistas de todo o mundo têm documentado as propriedades anticancerígenas de compostos canabinóides para várias malignidades, incluindo (mas não limitado a):

• O câncer de próstata. Pesquisadores da Universidade de Wisconsin descobriram que a administração do canabinóide sintético WIN-55 ,212-2, CB-1 e CB-2 agonista, inibiu o crescimento de células da próstata e câncer, também induziu apoptose. Comentário F.O.A.P: O câncer de próstata é o câncer mais comum em homens no Brasil.

• O câncer de cólon. Pesquisadores britânicos demonstraram que o THC desencadeia a morte celular em tumores do cólon, a segunda principal causa de mortes por câncer nos Estados Unidos da América.

• O câncer de pâncreas. Cientistas Espanhóis e Franceses determinaram que os canabinóides aumentaram seletivamente a apoptose em linhagens de células pancreáticas e reduziu o crescimento das células tumorais em animais, ignorando as células normais.

• O câncer de mama (comentário F.O.A.P: o que mais atinge e mata brasileiras). Cientistas dos Centros Médicos do Pacífico, em São Francisco (EUA) descobriram que o THC e outros canabinóides da planta inibiram de proliferação de células cancerosas e a metástase, e encolheu os tumores de câncer de mama. 1,3 milhões de mulheres em todo o mundo são diagnosticadas anualmente com câncer de mama e meio milhão sucumbe à doença.

• O câncer do colo do útero. Pesquisadores alemães da Universidade de Rostock informaram que o THC e um canabinóide sintético suprimiu a invasão do carcinoma do colo do útero humano em tecidos circundantes, estimulando o corpo da produção de TIMP-1, uma substância que ajuda as células saudáveis a ​​resistir ao câncer.

• Leucemia. Os investigadores da Universidade de St. George e Hospital Bartholomew, em Londres, descobriram que o THC atua sinergicamente com as terapias convencionais antileucemia para aumentar a eficácia de agentes anti-câncer in vitro (em um tubo de teste ou placa de Petri). Os cientistas já haviam demonstrado que o THC e canabidiol eram ambos potentes indutores de apoptose em linhas celulares leucêmicas.




• O câncer de estômago. De acordo com pesquisadores coreanos na Universidade Católica de Seul, o canabinóide sintético WIN-55 ,212-2 reduziu a proliferação de células de câncer de estômago.

• Carcinoma da pele. Pesquisadores espanhóis observaram que a administração de canabinóides sintéticos "induziram uma inibição considerável do crescimento de tumores malignos" na pele de ratos.

• Câncer do duto biliar. A administração de THC inibe a proliferação de células cancerosas no duto biliar, migração e invasão celular e induz a apoptose das células do câncer biliar de acordo com experimentos realizados na Universidade de Rangsit em Patum Thani, na Tailândia.

• Linfoma de Hodgkin e sarcoma de Kaposi. Pesquisadores da Universidade do Sul da Flórida constataram que o THC frustra a ativação e replicação do vírus herpes gama. Este vírus aumenta a probabilidade de uma pessoa desenvolver cânceres tais como de Hodgkin, linfoma não-Hodgkin, e sarcoma de Kaposi.

• O câncer de fígado. Cientistas italianos da Universidade de Palermo descobriram que um canabinóide sintético causou a morte programada de células de câncer de fígado.

• O câncer de pulmão. Cientistas da Universidade de Harvard relataram que o THC corta o crescimento do tumor de câncer comum do pulmão em metade e "reduz significativamente a capacidade do câncer de se espalhar." O câncer do pulmão é o assassino número um em todo o mundo. Mais estadunidenses morrem de câncer de pulmão a cada ano do que qualquer outro tipo de câncer.

Simon & Schuster, Copyright 2012 - Todos os direitos reservados. Esse trecho foi publicado com a permissão do autor.

O novo livro de Martin A. Lee "Smoke Signals: A Social History of Marijuana" (tradução livre Sinais de Fumaça: Uma História Social da Maconha) (Scribner, agosto de 2012). Ele é o co-fundador do grupo de fiscalização da mídia FAIR, diretor do "Project CBD," e um contribuinte para BeyondTHC.com.

fonte: http://www.alternet.org/drugs/can-pot-treat-cancer-without-devastating-effects-chemotherapy
Tradução: F.O.A.P

terça-feira, 18 de setembro de 2012

"Minha Opção em Abusar de Drogas" por Embeca Hipara


Minha Opção em Abusar de Drogas por Embeca Hipara (pseudônimo)

Esta é a tradução da introdução do livro 'Minha Opção em Abusar de Drogas' (ou em inglês 'My choice to abuse drugs', escrito por um dissidente de um satélite soviético que se mantém anônimo temendo represálias até hoje, e foi escrito originalmente como panfleto político anti-proibicionista sem fins lucrativos), traduzido pela F.O.A.P. (Forças Organizadas Anti-Proibicionistas), Coletivo Princípio Ativo de Porto Alegre e um jornalista anônimo.

 INTRODUÇÃO

A

Uma vez há algum tempo, eu e um amigo meu estávamos sentados num banco de uma típica praça pública, com jardim - dessas que ficam entre pequenos blocos de apartamentos -, próximo ao centro da cidade de Sofia . Fazia uma hora que a chuva havia parado, e encontramos com sorte um banco que não estava molhado - protegido da chuva pelos galhos de uma castanheira - e ali, dividíamos um baseado. Em meio a isso, notamos uma turma de senhoras, que estavam sentadas, paradas no espaço vazio da outra ponta do jardim.
Ninguém nunca sabe o que esperar de uma turma de senhoras. Nos idos de 1989, muitas delas tinham por aqui o hábito de denunciá-lo à polícia secreta, se por acaso você fizesse piadas sobre o partido comunista, ou se você ouvisse "música capitalista" - e um hábito desses aí não costuma morrer fácil, sendo mais provável que acabe se adaptando a novas realidades, como uma Guerra às Drogas, por exemplo.
"Agente" é a gíria mais usada por aqui para falar dessas pessoas curiosas demais, geralmente mais velhas, que observam você por trás das cortinas de suas janelas,

- Olha ali cara.. parece que tem um agente no terceiro andar.
- Qual deles? Ah sim.. então, vamos acender um cigarro. Aja naturalmente.

Assim que a erva fez efeito, as cores ficaram mais brilhosas que o comum, os sons da cidade e dos insetos ficaram mais destacados, e as batidas do coração mudam de ritmo. No chão já seco logo abaixo do banco do jardim, algumas lesmas e caracóis vagueiam, em seus delírios de câmera lenta, deixando trilhas brilhosas na grama e nas rachaduras do concreto.
"Olha isso", eu disse, e coloquei a ponta do cigarro bem em frente a um caracol. Após um bom tempo de observação - algo típico de um maconheiro -, o caracol havia chegado até o cigarro e, ao invés de simplesmente dar a volta por ele, parou bem na frente. Quinze minutos depois, três caracóis e uma lesma já haviam se juntado à festa. Como estátuas, ficaram ali, parados em frente à bagana. "Eles estão ficando chapados", meu amigo falou. "Sim", eu respondi.

- Será que é perigoso para eles? Assim, venenoso ou algo do tipo?
- Bem.. sem dúvida é tóxico para nós. Então não vejo porque não seria para eles.
- Será que eles podem morrer depois da exposição ao cigarro?
- Não faço idéia.. mas eles provavelmente vão morrer, ou podem ficar doentes, ou coisa do tipo.
- Isso não lhe incomoda?

Essa pergunta me fez repensar éticas, memórias e pensamentos - tarefa que pode exigir considerável esforço às vezes, quando se está chapado. Acabei respondendo algo do tipo: "Meu posicionamento é o seguinte, que caracóis são criaturinhas patéticas. No pouco tempo em que vivem, elas ficam tentando sobreviver e procriar. Elas estão aí, sendo esmagadas por pés, infectadas por bactérias, amassadas por carros. Até onde eu saiba, elas sequer possuem consciência, mas são como pequenos robôs que sentem dor, prazer e talvez algumas vezes, confusão, e que tentam desesperadamente fazer aquilo que foram programadas para fazer - procriar - antes que algo aconteça. Neste exato momento, enquanto elas ficam intoxicadas ou chapadas, como nós estamos dizendo, elas estão fora do programa que controla suas vidas, pelo menos por um pouquinho. Isso é a coisa mais próxima da liberdade, de alguma coisa como "individualidade", que elas poderiam um dia alcançar. Talvez todas morram em menos de meia hora. Não vou me sentir um assassino. Na verdade eu acho que até desejaria, se algum dia eu fosse um caracol ou uma lesma, que alguém viesse me oferecer um cigarro".

B

Há um pouco de arrogância, e uma bravata desnecessária, naquele argumento, mas de qualquer maneira eu ainda mantenho aquela atitude, que me fez dizer isto. De fato, eu a mantenho com mais convicção e argumentos mais desenvolvidos do que eu tinha naquela época. Considere eu. Onde eu estou neste jogo de destinos? Há uma eternidade antes do meu nascimento, há uma eternidade após minha morte. Planetas lentamente flutam no espaço, virando seus diferentes lados para os sóis em torno dos quais eles giram, os próprios sóis seguem seus padrões de movimento por milhões de anos, no nosso planeta montanhas mudam, continentes colidem e se reagrupam, oceanos evaporam, milhares de espécies de animais, pássaros, insetos, aparecem, se desenvolvem por milhares ou milhões de anos, e depois desaparecem. Quem sou eu? Minha vida é uma pequena faísca que está lá por um segundo, mesmo mil vezes menos que um segundo, depois desaparece. Puf! e eu me fui. No meu entendimento, durante esta minha vida eu posso fazer o seguinte:

a) seguir meus programas biológicos - os instintos das espécies a que pertenço - os "reflexos herdados", e meus "reflexos adquiridos" - hábitos simples que eu automaticamente aprendo do ambiente. Isto não me faria diferente de uma hiena ou de um mosquito.

b) eu posso também ser um humano, ultrapassar partes dos meus instintos e seguir programação social, que tem moldado minha psiquê desde meu nascimento, gerada por meus pais, minha educação e a sociedade como tal. Tal programação social molda o pensamento, as emoções e os hábitos do indivíduo humano do nascimento à morte, diferentemente, em diferentes sociedades e idade: de tal forma que eu faço, penso e vejo o que outras pessoas me dizem para fazer, pensar e ver.

Isto me faria um boneco biomecânico, que sente dor, prazer e talvez, às vezes, confusão, mas é diferente de um animal pois segue não instintos - a programação da natureza, e sim reflexos sociais - a programação da sociedade.

c) A terceira opção é manter as tentativas de rompimento - me desprogramar, me estudar e ver partes de mim que são de "fora", que são de "dentro", e talvez algum dia alcançar a transição de ser um típico representante de minha civilização - um triste e doente macaco com problemas emocionais e desilusões - a ser uma "pessoa" "autêntica", "real". Não apenas reconhecendo quão loucos todos são, e quão louco eu sou, não apenas tentando descobrir uma maneira de combater toda esta loucura, mas também tentando experimentar a vida em si, sem intermediários, experimentar a vida como tal, e não a versão distorcida, rasgada que foi jogada em minha cara, para ser seguida sob a ameaça de violência, prisão ou segregação mental.

É claro que este caminho do uso das drogas é perigoso - mesmo ignorando que aquela cadeia ou hospício estão a um fio de cabelo de distância - um erro durante a prática em si pode levar a doença ou morte.

Mas todos nós morremos. E ninguém está qualificado para escolher, por mim, quando e como eu morro. Na maioria, e talvez em todas as constituições das nações mundiais, o cidadão tem "um direito de viver". Mas nossas vidas não são eternas. Elas são eternas em um sentido religioso, mas nas leis existentes não há a vida eterna que é protegida, e sim a finita vida biológica de nossos cidadãos. E como humanos não são imortais - nós somos mortais - todos nós morremos, o "direito à vida" não significa o direito de não morrer - isto é impossível. Significa o direito de não ser assassinado. Significando o direito de não ter outra pessoa decidindo por você quando e como você morre.

Meu nascimento não foi minha escolha mas minha morte certamente pode e deve ser. Desde que eu não machuque ninguém diretamente - e eu certamente não mato, roubo ou estupro - então eu deveria ser deixado comigo em paz. Eu inteiramente concordo com a visão de que se todos fossem cabeças-duras como eu, a sociedade iria entrar em colapso. Se todos fossem geólogos abstêmios ou policiais alcólatras em escritórios e tivessem como hobby a observação de pássaros, a sociedade certamente também iria entrar em colapso. É precisamente a interação de pessoas radicalmente diferentes que faz única a nossa civilização e ao mesmo tempo a renova, permitindo que ela se cicatrize e não fique estagnada.

C

Pessoas que usam drogas ilegais, "viciados em drogas", oficialmente são criminosos do pior tipo, que devem ou serem presos para que "cidadãos de bem" não sejam infectados por sua loucura, ou sofrerem uma lavagem cerebral por psiquiatras normalizadores, que em décadas anteriores curaram carinhosamente em várias partes do globo, com suas pílulas, choques elétricos e seringas; crianças e adolescentes da masturbação; dissidentes de anti-comunismo; mulheres por sua "hiper-sexualidade"; homossexuais de sua homossexualidade. Normalizadores. Quando um dos bonecos bio-mecânicos começa a agir de forma estranha, ou a se comunicar com sinais esquisitos, ele tem de ser jogado fora ou "consertado".

- "Outro com o cérebro quebrado, doutor."
- "Ah então é isso? Vamos dar uma olhada...Hmm sim, ah, sim isso...Enfermeira! Meio metro de fiação, um conjunto de circuito B de percepção de profundidade de classe e um inibidor sexual tipo 3."

Nesse livro eu tento principalmente apresentar e analisar os vários argumentos que apóiam a necessidade do meu emprisionamento e lavagem cerebral, enquanto ao mesmo tempo apresento meus argumentos sobre como não devo ser preso ou sofrer uma lavagem cerebral. Há também alguns pensamentos posteriores e comentários adicionais. E uma observação final: mesmo se a pessoa X não usa drogas para nada 'útil', e só vaga por aí chapado, mesmo assim isso não deveria fazer dessa pessoa uma criminosa. A pessoa mais inútil do mundo não é criminosa até que mate, roube ou estupre. Qualquer outra coisa é um julgamento moral de um estilo de vida pessoal, que não deveria ter lugar nas leis de um país que se descreve como 'imparciais', 'democráticos' e 'livres'.


Aqui o link para o livro completo em inglês para quem quiser ler mais:
http://pt.scribd.com/doc/49839/My-Choice-to-Abuse-Drugs

sábado, 11 de agosto de 2012

Guerra aos Pecados, por Sam Harris


Nos Estados Unidos da América, e em grande parte do mundo, é atualmente ilegal buscar algumas experiências de prazer. Procure um prazer por um meio proibido, mesmo na privacidade de sua própria casa, e homens com armas podem chutar a sua porta e te levar embora para a cadeia. E uma das coisas mais surpreendentes sobre essa situação é como maioria de nós a acha pouco surpreendente. Como na maioria dos sonhos, a faculdade da razão que poderia nos ter feito notar a estranheza desses eventos parece ter sucumbido ao sono.

Comportamentos como uso de drogas, prostituição, sodomia, e a visão de materiais obscenos foram classificados como "crimes sem vítimas". Claro, a sociedade é a vítima tangível de tudo que os seres humanos fazem - desde fazer barulho a fabricação de resíduos químicos - mas não fizemos um crime destas ações, dentro de alguns limites. Definir limites em tese é sempre uma questão de avaliação de riscos. Alguém poderia argumentar que é no mínimo concebível que certas atividades praticadas em privado, como a visualização de pornografia sexualmente violenta, pode inclinar algumas pessoas a cometerem crimes reais contra outras pessoas.

Há uma tensão, portanto, entre a liberdade privada e risco público. Se houvesse uma droga, um livro, um filme, ou posição sexual que levasse 90 por cento de seus usuários a correr para as ruas e começar a matar pessoas de forma aleatória, as preocupações com prazer privado certamente iriam ceder diante daquelas da segurança pública. Podemos também estipular que ninguém está ansioso para ver gerações de crianças criadas em uma dieta constante de metanfetaminas e Marquês de Sade. A sociedade como um todo tem interesse em analisar como as suas crianças se desenvolvem, bem como com o comportamento privado dos pais, juntamente com o conteúdo de nossos meios de comunicação, claramente desempenham um papel nisso. Mas devemos nos perguntar, por que alguém iria querer punir pessoas por ter um comportamento que não traz nenhum risco significativo a outrem? Na verdade, o que é surpreendente sobre a noção de um crime sem vítimas é que mesmo quando o comportamento em questão é genuinamente sem vítimas, a sua criminalidade é reafirmada por aqueles que estão ansiosos para puni-la. Em tais casos é que a verdadeira motivação por trás de muitas das nossas leis é revelado. A idéia de um crime sem vítima é nada mais do que uma cobrança judicial do conceito Cristão de pecado.

Não é por acaso que freqüentemente as pessoas de fé querer cercear as liberdades privadas de terceiros. Esse impulso tem a ver menos com a história da religião e mais a ver com a sua lógica, porque a própria idéia de privacidade é incompatível com a existência de Deus. Se Deus vê e sabe todas as coisas, e se mantém uma criatura tão provinciana que fica escandalizada por comportamentos sexuais ou por alguns dos estados do cérebro/percepção, então o que as pessoas fazem na privacidade de suas próprias casas, embora possa não ter a mínima implicação em seu comportamento em público, ainda será uma questão de interesse público para as pessoas de fé.


Uma variedade de noções religiosas de delito pode estar convergindo aqui - preocupações sobre a sexualidade não-procriativa e especialmente idolatria - e parecem ter dado a muitos de nós a sensação de que é ético para punir as pessoas, muitas vezes severamente, por se engajar em comportamento privado que não prejudica ninguém. Como exemplos mais custosos de irracionalidade, em que a felicidade humana tem sido cegamente subvertida por gerações, o papel da religião aqui é tanto explícito e fundacional. Para ver que nossas leis contra "vícios" não tem nada a ver com evitar que as pessoas de sofram dano físico ou psicológico, e tudo a ver com não irritar a Deus, é preciso que só considerem que o sexo oral ou anal entre adultos com consentimento continua uma ofensa criminal em treze estados americanos. Quatro estados (Texas, Kansas, Oklahoma e Missouri) proíbem esses atos entre casais do mesmo sexo, portanto, efetivamente proíbem a homossexualidade. Outros nove estados proíbem a sodomia consensual para todos (lugares de equidade são Alabama, Flórida, Idaho, Louisiana, Mississippi, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Utah e Virginia). O indivíduo não precisa ser um demógrafo para compreender que o impulso para processar adultos responsáveis ​​por comportamento sexual não-procriativo está fortemente correlacionada justamente com a fé religiosa.


O impacto da fé em nossas leis penais tem um preço notável. Considere o caso das drogas. Como acontece, há muitas substâncias - muitas que ocorrem naturalmente - que seu consumo leva a estados transitórios de prazer desmedido. Ocasionalmente, é verdade, eles conduzem a estados transitórios de miséria. Porém não há dúvida de que o prazer é a norma, caso contrário os seres humanos não teriam sentido o desejo de consumir estas substâncias continuamente por milênios. Claro, o prazer é precisamente o problema com estas substâncias, já que o prazer e devoção sempre tiveram uma relação difícil.


Quando se olha para as nossas leis de drogas - na verdade, para todas nossas leis de vício - o único princípio-organizador que parece fazer sentido é que qualquer coisa que possa eclipsar radicalmente a oração ou a sexualidade para procriação como uma fonte de prazer foi feito ilegal. Em particular, qualquer droga, (LSD, mescalina, psilocibina, DMT, MDMA, maconha, etc.) que tenha significância espiritual ou religiosa atribuída pelos seus usuários se tornaram proibidas. Preocupações sobre a saúde dos cidadãos, ou sobre sua produtividade, são pistas falsas neste debate, como a legalidade de álcool e cigarros atesta.


O fato de que as pessoas estão sendo presas e processadas por uso de maconha, enquanto o álcool tem status de commoditie, é o reductio ad absurdum de qualquer noção de que nossas leis de drogas são projetadas para manter as pessoas de ferir a si ou aos outros. Álcool é por qualquer medida a substância mais perigosa. Não tem usos médicos aprovados, e sua dose letal é facilmente alcançada. Seu potencial para causar acidentes automobilísticos está fora de discussão. A maneira pela qual o álcool alivia as pessoas de suas inibições contribui para a violência humana, danos pessoais, gravidez não planejada, e a propagação de doenças sexuais. Álcool é bem conhecido por ser viciante. Quando consumido em grandes quantidades durante muitos anos, pode levar a seqüelas neurológicas devastadoras, a cirrose do fígado, e até a morte.

Nos Estados Unidos, mais de 100.000 pessoas morrem anualmente por seu consumo. Ele é mais tóxico para o feto em desenvolvimento do que qualquer outra droga de abuso. (Na verdade, "bebês do crack"  parecem ser vítimas na verdade da síndrome fetal do álcool). Nenhuma dessas acusações pode ser nivelada a maconha. Como uma droga, a maconha é quase única em ter várias aplicações médicas e dosagem letal desconhecida. Embora reações adversas a medicamentos como aspirina e ibuprofeno somam 7.600 mortes estimadas (76,000 e Internações) a cada ano nos Estados Unidos, a maconha não mata ninguém. Seu papel como uma "droga porta-de-entrada", agora parece menos plausível do que nunca (e nunca foi plausível). Na verdade, quase tudo que os seres humanos fazem - dirigir carros, pilotar aviões, acertar bolas de golfe - é mais perigoso do que fumar maconha na privacidade do próprio lar. Qualquer um que tente argumentar seriamente que a maconha é digna da proibição devido ao risco que representa para os seres humanos irá descobrir que os poderes do cérebro humano são simplesmente insuficientes para o trabalho.

E, no entanto, estamos tão longe dos bosques aprazíveis da razão agora que as pessoas continuam recebendo penas de prisão perpétua sem a possibilidade de condicional por cultivar, vender, possuir e comprar o que é, de fato, uma planta que ocorre naturalmente. Pacientes com câncer e paraplégicos foram condenados a décadas de prisão por posse de maconha. Proprietários de lojas de jardinagem já receberam prêmios semelhantes porque alguns de seus clientes foram pegos plantando maconha. O que explica este surpreendente desperdício de vida humana e recursos materiais? A única explicação é que o nosso discurso sobre este assunto nunca foi obrigado a funcionar dentro dos limites da racionalidade. De acordo com nossas leis atuais, é seguro dizer que, se uma droga fosse inventada, que não representasse nenhum risco de dano físico ou vício para os usuários, e produzisse um sentimento breve de felicidade e epifania espiritual em 100 por cento dos que tentassem utilizá-la, esta droga seria ilegal, e as pessoas seriam impiedosamente punidas por sua utilização. Apenas a ansiedade sobre o crime bíblico de idolatria parece fazer sentido diante desse impulso retributivo. Porque somos um povo de fé, ensinados a nos preocupar com o pecado dos nossos vizinhos, que temos crescido tolerantes com usos irracionais do poder estatal.


Nossa proibição de algumas substâncias tem levado milhares de homens e mulheres produtivos e cumpridores da lei a serem trancados por décadas a fio, às vezes por toda a vida. Suas crianças ficando sob custódia do estado. Como se tal horror em cascata não estivesse perturbando o suficiente, os criminosos violentos - homicidas, estupradores e molestadores de crianças - são frequentemente libertados em condicional para dar espaço para eles. Aqui nós parecemos ter ultrapassado a banalidade do mal e mergulhado na profundidade do absurdo.


As consequências da nossa irracionalidade nessa frente são tão flagrantes que nos cabe uma análise mais aprofundada. A cada ano, mais de 1,5 milhões de homens e mulheres são presos devido as leis drogas nos Estados Unidos. Neste momento, em algum lugar na ordem de 400.000 homens e mulheres definham nas prisões dos EUA por infrações de drogas não-violentas. Um milhão de outras pessoas estão atualmente em liberdade condicional. Mais pessoas estão encarceradas por delitos de drogas não violentos nos Estados Unidos que por qualquer motivo em toda a Europa Ocidental (que tem maior população). O custo desses esforços a nível federal, sozinho, é de aproximadamente 20 bilhões de dólares anualmente. O custo total de nossas leis de drogas - quando somamos as despesas dos Governos e a receita fiscal perdida pela nossa incapacidade de regular a venda de drogas - poderia ser facilmente mais de US$ 100 bilhões de dólares a cada ano. Nossa guerra contra ás drogas consome cerca de 50 por cento do tempo dos tribunais e as energias em tempo-integral de mais de 400.000 policiais. Esses recursos poderiam ser utilizados de outra forma, para combater a criminalidade violenta e o terrorismo.


Em termos históricos, havia todas as razões para se esperar que a política de proibição seria um fracasso. É sabido, por exemplo, que o experimento com a proibição do álcool nos Estados Unidos fez pouco mais que precipitar uma comédia terrível de aumento de taxas de consumo de álcool, crime organizado e corrupção policial. O que não é geralmente lembrado é que a proibição foi um exercício explicitamente religioso, sendo o produto do conjunto da Woman's Christian Temperance Union (União da Temperança Cristã das mulheres, tradução livre) e do lobby religioso de algumas sociedades protestantes missionárias. O problema com a proibição de qualquer produto desejável é o dinheiro. As Nações Unidas estimam o comércio de drogas em US$ 400 bilhões por ano. Isso excede o Orçamento Anual para o Departamento de Defesa dos EUA. Se esses números estiverem corretos, o comércio de drogas ilegais representam 8 por cento de todo o comércio internacional (enquanto a venda de têxteis representa 7,5 por cento e veículos a motor apenas 5,3 por cento). E vale notar que sua proibição é o que torna a fabricação e a venda dessas drogas tão extraordinariamente rentável. Aqueles que ganham a vida assim desfrutam de um retorno de 5.000% a 20.000% de seus investimentos, livre de impostos.

Todo indicador relevante do assunto do tráfico de drogas - as taxas de uso de drogas e proibição, estimativas de produção, a pureza de drogas na rua, etc. - mostram que o governo não pode fazer nada para detê-lo enquanto tais lucros existirem (na fato, esses lucros são altamente corrompíveis para os aplicadores da lei de qualquer forma). Os crimes do dependente, para financiar o custo estratosférico de seu estilo de vida e os crimes do traficante, para proteger seus bens e seu território, são também resultados da proibição. A ironia final, o que parece bom o suficiente para ser obra de Satanás em pessoa, é que o mercado criado por nossas leis de drogas tornou-se uma fonte estável de receitas para organizações terroristas como a Al Qaeda, a Jihad Islâmica, o Hezbollah, o Sendero Luminoso, entre outros.

Mesmo se reconhecemos que a interrupção do uso de drogas é um objetivo social justificável, como é que o custo financeiro de nossa guerra às drogas aparece à luz diante dos outros desafios que enfrentamos? Considere que seria necessário apenas uma única despesa de US$ 2 bilhões para garantir a segurança dos portos comerciais estadunidenses contra o contrabando de armas nucleares. Atualmente meros 93 milhões de dólares tem sido alocados para esta finalidade. Como a proibição do uso de maconha nos EUA soará (a um custo de US $ 4 bilhões por ano), se um novo sol despontar sobre o porto de Los Angeles?  Ou considere que governo dos EUA possui recursos para gastar apenas 2,3 bilhões dólares anuais para a reconstrução do Afeganistão. O Talibã e a Al Qaeda estão se reagrupando agora. Senhores da guerra dominam o campo além dos limites da cidade de Cabul. O que é mais significativo para nós, recuperar esta parte do mundo para a forças da civilização ou impedir que pacientes com câncer em Berkeley aliviem suas náuseas com maconha? Nosso uso de fundos do governo este ano sugere uma distorção estranha - poderíamos dizer mesmo uma falta de bom-senso - das nossas prioridades nacionais. Tal alocação bizarra de recursos seguramente manterá o Afeganistão em ruínas por muitos anos por vir. Também deixará os agricultores afegãos com nenhuma alternativa a não ser cultivar ópio. Felizmente para eles, devido as nossas leis de drogas, este continuará um empreendimento altamente rentável.


Qualquer um que acredita que Deus está nos observando além das estrelas vai sentir que punir homens e mulheres pacíficos pelo seu prazer particular é perfeitamente razoável. Estamos agora no século XXI. Talvez devemos ter melhores razões para privar os nossos vizinhos de liberdade sob a mira de uma arma. Dada a magnitude dos problemas reais que nos confrontam, como o terrorismo, proliferação nuclear, a propagação de doenças infecciosas, infra-estrutura falha, falta de fundos adequados para a educação e cuidados de saúde, etc. Nossa guerra contra o pecado é tão escandalosamente insensata e tola que desafia até o comentário racional. Como temos crescido tão cegos para os nossos interesses mais profundos? E como conseguimos aprovar essas políticas com tão pouco debate substantivo?


Passagem do livro "The End of Faith" de Sam Harris que é neurocientista, filósofo e ativista secular. 

Tradução: F.O.A.P.